Quando eu crescer, quero ser designer. Sim, porque quanto mais eu estudo, mais eu me sinto uma micreira. Eu ainda tenho tanta coisa pra aprender, tanta referência pra acumular, que quando alguém me pergunta “que livros eu preciso ler pra ser um web designer” eu meio que me vingo falando difícil, só de raiva desse mundo cruel.
Por isso esses dias até os filmes que eu vejo são pra estudar (ok, não todos), mas não é nada sobre Photoshop ou CSS. É teoria pura do design. Uma coisa linda. Uma coisa poética. Uma coisa que faz a gente pensar, que deixa o cérebro trabalhando, que faz a gente criar paralelos com coisas nada a ver mas que são exatamente a mesma coisa.
Tipo música. A letra da música é o conteúdo. A forma como ela é tocada, é o design.
A não ser que você tenha vivido em retiro espiritual desde que nasceu e só tá voltando hoje, você já ouviu Como é grande o meu amor por você, do Roberto Carlos. Não interessa se você gosta dele ou não, você vai concordar comigo que é uma letra intensa. Pode ser cafona pra você? Ok, mas não é uma letra mediana.
Aí tem o tema de abertura de Amor e Intrigas, a novela da Record. Aliás, a abertura da novela daria um TCC sobre design, já que não combina absolutamente em nada com a história (eu meio que moro numa casa onde pessoas assistem novelas da Record), que é exatamente a mesma música do Roberto Carlos, mas cantada por um tal de Davi Moraes. Davi who? você me pergunta. Tbem não sabia, joguei no Google, e ele é ex da Ivete Sangalo, filho do Moraes Moreira, e aparentemente a coisa mais importante que ele já fez na vida foi dar uma entrevista pro Pânico.
A versão que o cidadão fez pra música do Roberto é mais ou menos como aquele site de empresa que fica na mão do sobrinho do dono. Uma merda. Não importa se a letra da música é fantástica, a forma como ela foi executada na versão do periguete é medíocre, a experiência de ouvir a música se tornou incômoda. Isso, crianças, é exatamente como o design ruim.
Você pode também fazer uma comparação com a letra de Mutantes, da Rita Lee. Não, essa música não é da Daniela Mercury. Certeza. Absoluta. A música cantada pela Rita no álbum Bossa’n Roll é linda, a versão cantada pela Daniela serviu pra tocar no rádio pro povão. O mesmo conteúdo, com design diferente pra públicos diferentes. E pra colocar uma pá de cal na dignidade, veio a Preta Gil regravar a música e fazer uma completa bosta. Neste caso, Preta Gil é o moleque que fez um cursinho na Microcamp e acha que é designer, mas não é nada na vida.
E da mesma maneira, existem letras da Rita Lee que funcionaram muito bem nos anos 80, mas que quando foram regravadas nos álbums mais recentes ficaram simplesmente lindas, como Saúde, Coisas da Vida (que no Acústico MTV é simplesmente *divina*) e algumas outras.
E, assim como gosto para o design, gosto musical não se discute. Assim como tem gente que prefere a Preta Gil à Rita Lee, tem gente que acha que usar Comics Sans (até o nome é babaca) é uma coisa absolutamente normal. Mas eu duvido que, se a Preta Gil enfiar na cabeça que do jeito que ela está hoje está bom demais, um dia ela vá virar uma cantora de verdade.
Eu tenho a consciência de que eu posso não ter aprendido ainda tudo o que eu preciso ou deveria saber, mas mesmo me sentindo uma micreira às vezes eu sei que eu tô bem acima da média. Tirando o shape, eu não sou uma Preta Gil da vida.