(um post enquanto a dor de cabeça não passa)
“Você abriria uma firma pra passar o dia inteiro lendo e-mails e baixando música?”
(ou algo do tipo, do Carreira Solo)
Todo mundo acha que trabalhar em casa é a melhor coisa do mundo. Tipo com esse calor, um ventilador na cara, água de côco do lado do teclado, e você ainda pode fazer suas coisas em qualquer horário sem ninguém pra encher o saco.
É, tudo muito lindo mesmo, mas exige um nível de elevação espiritual que Carreira Solo nenhum leva em conta na hora de dissertar sobre o assunto.
Nas últimas três semanas eu tenho reparado bem como a banda toca. Você tá em casa o dia inteiro, então é você quem leva o cachorro no veterinário, quem vai ao banco pagar aquela conta que se perdeu no meio da correspondência, e especialmente é você o ombro amigo que todo mundo procura pra conversar.
Vamos falar a verdade, pra alguém que já gosta muito pouco de conversar fora de hora, ser interrompida pra ouvir probleminhas familiares pesa no saco. Quer dizer, eu acho que toda essa coisa de MSN deixa as pessoas anti-sociais ainda piores. Porque quando você quer conversar, abre o MSN com aquele online arregaçado; quando não quer, simplesmente fica offline e pára de responder emails. Infelizmente não dá pra fazer isso com as pessoas que moram na mesma casa que você, já que porta fechada tem o mesmo efeito do “ocupado”: nenhum.
Tem também a hora do cafezinho. Quando você trabalha numa empresa, não pode parar pra tomar café 10 vezes durante a tarde nem passar 40 minutos ao lado do bebedouro - a não ser quando o chefe sai, bla bla. Em casa a tentação de ir até a cozinha buscar alguma coisinha e na volta parar pra dar uma olhadinha na tv por exemplo é grande. E quando a gente cai em tentação nem precisa de um programa muito bom pra prender a atenção, qualquer bizarrice serve.
E se você não tem colegas de trabalho falando sobre a novela, você tem os filhos do vizinho em férias. Céus, como criança sabe ser monótona! Espero que pelo menos eles estejam se divertido com essa brincadeirinha de palavras ensaiadas, porque daqui tá parecendo tudo muito chato.
Mas, vamos ser Poliana, pelo menos não tem bombinha envolvida! Porque eu estive muito perto de provocar um incidente diplomático no quarteirão depois das festas de final de ano.
Claro que tudo isso é muito óbvio e que nenhum emprego no mundo é perfeito, nem que você trabalhe numa praia deserta com temperatura amena. A coisa mais difícil mesmo quando você vira freelancer é a disciplina. Porque se você pára um dia por causa de uma dor de cabeça muito forte, seu patrão não descontaria nada do seu salário, e do mesmo jeito você também não perde nenhum cliente pq parou pra esperar a maldita passar. Mas quando a dor de cabeça dura dois, três, quatro dias (ou você pega uma catapora e não consegue passar 5 minutos na mesma posição durante uma semana inteira) aí é que entra o auto controle e a mentalidade vencer vencer pra não se enfiar no sofá no meio da tarde.
Mas o que eu mais sinto falta trabalhando fora é que, mal ou bem, toda semana alguém limpava a minha mesa. Agora eu tenho que fazer isso sozinha. O que não é um problema em si: o problema é que a gente sempre repara na sujeira quando dispersa, justamente naquela hora em que deveria estar trabalhando mas a coisa não tá fluindo. Disciplina, vencer-vencer.
Não, eu não tô arrependida por ter trocado a vida de escravidão em meio a freiras psicóticas pela vida de freelancer. Não é uma carreira fácil, mas ninguém disse que seria. Eu preciso passar por cima da timidez e da aversão ao telefone pra conseguir cliente, mas quantas vezes eu tive que passar por cima de coisas realmente importantes, como minhas próprias crenças, pra fazer o que a chefe mandava?
Além do mais, quando você trabalha pra você mesmo seu cérebro não pára de ter idéias - e não tem coisa mais desagradável do que chegar num estágio dentro de um emprego em que você nem se dá ao trabalho de pensar porque sabe que não importa se o trabalho vai sair razoável ou ótimo, ninguém vai dar a mínima. É aí que o lado profissional dentro da gente começa a morrer. E, sei lá, pra mim é uma das piores coisas que pode existir. Isso e a dor de cabeça pós catapora.